Meu querido Porto

Pois é hoje terminou a minha participação como professora da Pós-Graduação de Moda e Consultoria de Imagem no IPAM Porto.
Estou a deixar para trás uma cidade maravilhosa cheia de pessoas boas, simpáticas e hospitaleiras. O sol marca a hora da despedida aquecendo as boas lembranças e a musica no taxi e vista da Ponte foi a perfeita banda sonora para me deixar emocionada.
O Porto não é uma cidade qualquer para mim É um destino que me leva à minha infância em que brinquei e cresci em casa dos meus avós (de quem tenho muitas saudades) em Leça do Bailio. Fui muito feliz, rodeada de pessoas humanas e muito humildes, com contrastes marcantes e sedutores. As vozes roucas do povo são quentes e carismáticas. Deixam sempre marcas na nossa estadia pelas suas expressões e carinho. Os cheiros e as cores do Bulhão continuam a fazer parte das minhas lembranças mais pitorescas, assim como as idas à feira, o jardim e quintal da minha avó, a laranjeira carregada de laranjas, a pereira imperial, o tanque de pedra áspera a cheirar a sabão azul e branco, as couves com as gordas gotas de orvalho da manhã, as simpáticas galinhas que eu tentava domesticar, e tantas outras coisas, não menos importantes que me deslocam a uma época tão simples e feliz da minha vida.
Aproveitei esta ultima vinda para visitar os meus tios, noutra zona da cidade mais glamorosa e ostensiva. Foi emocionante carregar na campanhia do emblemático mil e nove e ouvir a voz do meu Tio, “Está sim?” É a nossa Sofióta?”. Quis subir a rampa a correr para chegar mais depressa, mas o corpo impedia-me de perder todos os pormenores da casa. Lembrei-me de tanta coisa e foi tão bommm.
Foi tão bom entrar num sitio que parece que ficou no ultimo dia em que parti. Nem mais, nem menos uma coisa, estava tudo igual ao que tinha deixado da ultima vez. Os cheiros eram os mesmos de sempre, as cores, os quadros, os tecidos. Apenas o chá passara a ter gelo e limão junto ao Earl Grey do costume. Eu querida ouvir as conversas, saber das novidades, falar de mim, mas os meus olhos percorriam por tantas lembranças que era quase difícil parecer concentrada. Ri-me ao lembrar-me das inumeras vezes que obriguei o meu irmão a casar-me com o filho de um amigo da familia ao som de um piano pesado e desafinado. O ambiente era perfeito! Eu podia não saber ainda contar, mas já sabia dizer “sim aceito” e vamos ser felizes para sempre lol. Pela tortura que fiz passar os 2 rapazes devo ter sido castigada porque agora que já sei contar até mais do que 10, não consigo dizer “I DO”.
Ri-me a lembrar-me das tolices que o meu tio inventava sobre as figuras do jogo de Xadrez. As brincadeiras com as portas de correr. Os cães que nos receberam, as araras e o Louro que nos diziam “Oláaaa” sempre que entrávamos na cozinha.
Apesar da vida continuar, todos estes momentos vão fazer parte de mim e da minha vida.
O Porto para mim, nesta altura da minha vida é uma mistura entre lembranças perfeitas, experiências e novos desafios contagiantes como dar aulas, conhecer pessoas novas, ultrapassar barreiras e algumas timidezes.
Foi um caminho feito de cá para lá e de lá para cá que me brindou com tanta coisa boa que quase me atrevo a dizer que o Porto foi a minha fuga, o meu canto, o meu destino de eleição. A obrigação às vezes tem destas coisas, torna o que parece longe numa certeza e numa vontade. Claro que não me posso esquecer das viagens no comboio Alfa a romantizar sobre o encontro perfeito, sempre acompanhas de refeições fantásticas servidas com imensa simpatia, para esquecer o destino de partir e chegar sozinha. Às vezes com sorrisos e coincidências pelo meio, histórias engraçadas para contar, mas ao fechar as portas automáticas e o barulho do comboio desaparecer por entre a linha dos carris, nada mais havia para dizer ou sonhar. Para a frente era o caminho e havia muito trabalho para fazer.
Hoje ao acompanhar o Douro por entre barcos e uma Ribeira convidativa, tive medo de dizer adeus porque não quero que o Porto seja um adeus para sempre, mas um até breve recente. Prometo contrariar a minha inercia e desculpas de que agora não dá muito jeito deixa ver para o mês que vem….Prometo não vir e chegar a correr e da próxima vez desfrutar um pouco mais da terra, do que da vista que vejo a passar das janelas dos carros e dos comboios.
Beijinhos e obrigada a todas as pessoas do norte que me fizeram sentir muito e mais especial ainda
Sofia
 

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